Sadness is beautiful, loneliness is tragical
so help me I can't win this war, oh no*
(Shape of My Heart – Max Martin/Rami/Lisa Miskovshy - Backstreet Boys)
Há tempos penso que preciso andar mais com as próprias pernas e ser menos dependente dos meus amigos. Sei que há momentos que a minha amizade sufoca a todos eles – sou muito superprotetora – e sei que, quando eles se sentem sufocados, acabam me magoando sem querer. Pois bem, uma das minhas metas para este ano é ser solteira e viver bem com essa situação toda, e viver bem com tudo isso, implica em estar mais sozinha.
Pode parecer meio loucura isso tudo o que disse, mas basta analisar a seguinte situação: feriado prolongado + amigos solteiros longe + amigos comprometidos com seus respectivos parceiros + tempo chuvoso. Diante desta situação você:
a) Fica sozinho em casa, curtindo aquela tristeza.
b) Sai com os amigos comprometidos e fica de vela.
c) Sai sozinho e tenta se divertir.
Bem, eu me prometi que tentaria fazer da minha solteirice a mais feliz possível e, como não tenho mais cabeça/paciência para ficar vendo as PDAs** dos casais de namorados, me restou a alternativa C. O problema é que numa cidade enorme, quando se é nerd, o que sobra num carnaval é museus e cinemas, ou seja, nada muito animador para uma pessoa solitária. Sempre disse que “ir ao cinema sozinha é fim de carreira” e penso o mesmo sobre as idas ao museu. Ir sozinha, não ter ninguém do seu lado para comentar/consolar é a maior prova de solidão que um ser humano pode dar a si mesmo... Mas não é que hoje paguei o que vivia dizendo? Hoje, pela primeira vez em 24 anos de existência, fui ao cinema sozinha.
Sair de casa foi o primeiro ponto “estranho”. É diferente sair de casa para curtir algo sozinha, quando, normalmente, se está cercada por amigos. Meus pais me perguntaram (mais de uma vez) se iria MESMO sozinha, e eu tive que ter um bocadinho de paciência para repetir inúmeros “sim”. Aí, aquela coisa de sempre: ônibus, metrô (maquiagem no metrô, só para não perder o costume), caminhadinha na avenida, compra do ingresso. Comprar o ingresso também foi algo interessante. Ontem havia ido ao cinema assistir Cisne Negro com uma amiga e lá vi o cartaz de um filme que me chamou a atenção, Poesia é o seu nome. Foi ingresso para esta película que eu comprei. Como todos sabem, escrevo poesia, então, não poderia deixar a oportunidade de ver um longa-metragem com este tema.
Entretanto, não foi apenas o assunto que me chamou a atenção. Antes de partir para esta “aventura” de visitar o cinema sozinha, fui pesquisar sobre a obra cujo cartaz me despertara a curiosidade no dia anterior. No
site do cinema encontrei as seguintes informações:
POESIA (DIGITAL)
Coréia do Sul (2010) – 139 minutos.
Gênero: Drama
Censura: a definir
Direção: Lee Chang-dong
Elenco: Jeong-hee Yoon, Hira Kim, Da-wit Lee
Sinopse: Mija (Jeong-hee Yoon) vive com seu neto nas encostas do rio Han. É uma senhora excêntrica com uma mente inquieta e questionadora. Um dia, ela entra por acaso em uma aula de poesia em um centro cultural na vizinhança e é desafiada pela primeira vez a escrever um poema. Sua busca pela inspiração começa ao observar a beleza do cotidiano, as coisas ao seu redor que ela nunca havia reparado. Mas quando a realidade se torna cruel, ela é obrigada a ver que o mundo não é tão bonito quanto ela imaginava.
- Prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes de 2010.
O que me deixou impressionada – e mais curiosa ainda – é o fato do filme ser uma produção sul-coreana. Eu, que raramente saio do eixo Hollywoodiano, querendo ver um filme coreano! Isso é o que chamo de sair MESMO da rotina...
Antes de começar a sessão, passeio na livraria (e compras, por que não?), suco no McDonald’s (ninguém é de ferro!) e telefonema para a amiga que faz aniversário (Sue, parabéns one more time!... e desculpe de novo pelo recado tosco na caixa postal! Sou melhor escrevendo do que falando, você sabe disso!). Até que chegou a hora. Ser a primeira a entrar na sala, ver os casais (uns mais jovens, outros bem idosos) se acomodarem, assistir aos comerciais e aos trailers sozinha... Poderia ter sido bem pior se eu fosse a única sozinha na sala de cinema; todavia, como vi as outras pessoas entrarem, percebi que não era a única naquela situação (não fazia parte da maioria, mas também não era a única).
Falando do filme, ele é simplesmente uma obra de arte! Não é a toa que ganhou o prêmio em Cannes. A fotografia também está de parabéns. O set todo foi escolhido de maneira que ajudasse a compor a essência da trama. A história é envolvente, tocante e surpreendente! Não pude deixar de me emocionar em vários momentos, não pude deixar de sair daquela sala chorando. A busca pela profundidade das relações humanas se reflete na busca pela poesia que Mija faz em seu cotidiano e no seu próprio interior. Como diz o professor do filme: “O difícil não é escrever poesia, o difícil é encontrá-la no coração”. É esta a lição que levo comigo. Uma lição de que já sabia, mas que nunca havia encontrado palavras para expressá-la.
Saí do cinema comovida. Comovida sem colo ou consolo (essa é a parte ruim de ir sozinha). Comovida com a fraqueza e com a coragem de Mija. Comovida com a minha fraqueza e com a minha coragem. Mas, mais do que isso, orgulhosa por um pequeno passo que dei e com a pequena conquista que tive. Comovida e orgulhosa, durmo hoje, sabendo que a Poesia é o caminho, é o MEU melhor caminho para seguir solitária , porém feliz.
PS: Trailer do filme
aqui. ;)
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*tradução:
A tristeza é bonita, a solidão é trágica / Então ajude-me, eu não consigo vencer essa guerra oh não.
**PDA = Public display of affection = Demonstração pública de afeto